Os dados de contato de vários desses especialistas podem ser encontrados na seção Banco de Fontes.
“É um engano achar que só marido pobre bate no filho e na
mulher (...) No início, atendíamos eminentemente pobres. Hoje, as classes
média e alta representam metade dos nossos atendimentos.”
Fernanda Maria Amaral, psicóloga e coordenadora do
Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade Gama Filho/RJ, em IstoÉ, ed.
1812, reportagem de capa, seção Brasil, 30/06/04.
“A violência é tão corriqueira que muitos homens não a identificam. É
uma geração que foi criada para não levar desaforo para casa.”
Fernando Acosta, psicólogo,
em IstoÉ, ed. 1812, reportagem de capa, seção Brasil, 30/06/04.
“Em uma das oficinas com autores de violência, um
participante falou: ‘olha, eu pratico violência, eu não quero praticar, só
que não sei o que fazer com isso’. Um segundo acrescentou: ‘sou compulsivo
em termos de violência contra a mulher, preciso de ajuda’. Outros homens
demoram para reconhecer a agressão doméstica como violência, acham que
violência é outra coisa, por exemplo, dar tiro na rua.”
Fernando Acosta, psicólogo
“Queremos que as mulheres se fortaleçam, saiam da
posição de vitimização. E que os homens expressem suas fragilidades. Em
geral, os homens não falam de seus sentimentos. Muitos consideram essa fala
como sinal de falta de masculinidade. Trabalhamos com os homens, estimulando que
eles reflitam acerca de suas fraquezas e seus impulsos. Queremos que eles se
conscientizem de que há outras formas de resolução de conflito. Tentamos
mostrar que a violência doméstica também é ruim para eles.”
“A violência doméstica contra a mulher prejudica toda a
família. Sofrem os filhos, as filhas, os parentes próximos e até mesmo o
autor da violência.”
Malvina Muszkat, psicóloga do Pró-Mulher, Família e
Cidadania
“As pessoas precisam rever muitos valores. Por exemplo, há
quem ache que violência contra as mulheres é legítima em certas situações.
Isso precisa ser discutido. Toda violência é, por princípio, ilegítima.”
Simone Diniz, médica e coordenadora do Coletivo Feminista
Sexualidade e Saúde
“A violência doméstica está associada com patologias
reais. As mulheres em situação de violência tendem a apresentar problemas de
saúde de diversos tipos, problemas mentais, depressão e até propensão ao
suicídio. Elas também fazem menos papanicolaou, fazem menos sexo seguro.”
“Nossa aposta é que o serviço de saúde tenha mais
consciência da violência doméstica e ajude a encaminhar as mulheres para
outros serviços da rede de atenção. O serviço de saúde também pode ser um
espaço de escuta e de acolhimento. Inclusive, essa escuta é boa para o
próprio serviço, pois se a violência doméstica não se resolve vira um
círculo vicioso: a mulher vai e volta.”
Ana Flávia P.L. d’Oliveira, pesquisadora do Departamento
de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP
“Nas oficinas com os homens, percebemos que a ‘identidade
masculina’ vê a violência como algo quase natural, quase como sinônimo da
masculinidade. Homem que é homem, manda. O objetivo do nosso trabalho é
desnaturalizar essa violência que vai desde obrigar a companheira a servir a
comida até ter relações sexuais forçadas.”
“Estamos percebendo que ser homem também não é
muito fácil, porque nos pautamos por um modelo preestabelecido. Desfazer esse
modelo é, ao mesmo tempo, abrir mão de certos privilégios. Só que esses
privilégios não são tão privilégios assim. Ter o poder acaba nos
vitimizando também.”
“Ao trabalhar com autores de violência, a gente compreende
que eles não são agressores vinte e quatro horas por dia. Eles podem e devem
passar por um processo de responsabilização do seu ato. Eles podem mudar de
comportamento.”
“As oficinas com homens dão resultados: um participante
contou que no final da refeição, se levantou e foi lavar os pratos junto com a
companheira. Antes, ele acabava de comer e ia ver televisão.”
Sérgio Barbosa, Pró-Mulher, Família e Cidadania
“Começamos a refletir sobre os ‘custos da masculinidade’.
Ser homem tem as suas benesses, é claro. A gente vive em um mundo ainda
dominado pelo patriarcado, mas esse mundo também tem os seus custos. As
estatísticas mostram que os homens, até vinte e nove anos, morrem mais por
questões de violência.”
“A violência não é natural. É um comportamento
aprendido. Quando um menino apanha na escola de outro menino, ele recebe
mensagens dentro da sua casa: ‘amanhã, você vai lá e morde ou bate nele
também’. Com isso, acabamos criando uma cultura da violência. A violência
fica tão banalizada, que determinadas atitudes violentas passam como não
sendo.”
“Acredito que a violência doméstica possa ser prevenida.
Tanto que os nossos esforços estão no trabalho com os homens jovens. Porque é
nessa faixa etária que eles estão formando suas primeiras relações afetivas,
tendo as suas primeiras relações sexuais. É um momento propício para a
reflexão e a construção de o que é ser homem”.
Marcos Nascimento, coordenador de projeto do Instituto
Promundo
“Para prevenir as DSTs, a gente tem um instrumento: a
camisinha. Para prevenir a violência, a gente faz o que? Não dá para pôr
todo mundo na cadeia. Então temos que encontrar novas saídas. Uma delas é
mostrar a violência doméstica na mídia. Isso irá estimular que as pessoas
pensem. Homens e mulheres precisam encontrar caminhos para a resolução de
conflito.”
“Trabalhamos com os homens na perspectiva de compreender
como é que se constitui a masculinidade dominante. O objetivo é tentar pensar
outros modelos, outras possibilidades de comportamento, que não o violento”.
Sandra Unbehaum, coordenadora de projeto da Ecos -
Comunicação em Sexualidade
“Esta é uma grande vitória para todas as brasileiras e
brasileiros que sofrem com as agressões físicas, morais e psíquicas dentro do
convívio familiar. Espero que agora, os agressores pensem duas vezes antes de
levantar a mão para uma mulher e assim, buscar alternativas para que o
convívio doméstico seja harmônico.”
Iara Bernardi, deputada federal, após a sanção da Lei
10.886/04, que tipifica a violência doméstica no Código Penal Brasileiro, um
projeto de sua autoria.
“O racismo e o sexismo são gêmeos univitelinos.”
Heleieth Saffioti, socióloga, em IstoÉ, ed. 1812,
reportagem de capa, seção Brasil, 30/06/04.
“As pessoas envolvidas na relação violenta devem ter o
desejo de mudar. É por esta razão que não se acredita numa mudança radical
de uma relação violenta , quando se trabalha exclusivamente com a vítima.
Sofrendo esta algumas mudanças, enquanto a outra parte permanece o que sempre
foi, mantendo seus habitus, a relação pode inclusive, tornar-se ainda
mais violenta. Todos percebem que a vítima precisa de ajuda, mas poucos vêem
esta necessidade no agressor. As duas partes precisam de auxílio para promover
uma verdadeira transformação da relação violenta.”
Heleieth Saffiotti, socióloga, em seu livro Gênero,
patriarcado, violência.
“Só quando fica insuportável é que a mulher quebra a barreira do
silêncio.”
Marta Rocha, delegada e presidente do Conselho da Mulher no
Rio, em IstoÉ, ed. 1812, reportagem de capa, seção Brasil, 30/06/04.
“A tese é de um grau de ridículo que, se não fosse trágico, seria
cômico. É uma covardia individual apoiada em uma covardia social.”
“A honra, nesse raciocínio, é só do homem. É como se depois do
casamento a mulher fosse um prolongamento desse sujeito. Ele deposita nela um
bem que é dele.”
Wânia Pasinato, socióloga da USP, em Época,
09/02/04.
“A lei é muito clara: para caracterizar violenta emoção,
é preciso que o sujeito aja logo na seqüência de uma injusta provocação da
vítima. Ou seja, no ato. E a realidade mostra que os crimes passionais são
premeditados com bastante antecedência.”
“Os assassinos passionais premeditam o crime, são muito
violentos e em 100% dos casos confessam à sociedade o que fizeram. Eles
precisam mostrar que lavaram a honra.”
Luiza Nagib Eluf, procuradora de Justiça do Ministério
Público de São Paulo e autora do livro A Paixão no Banco dos Réus.
“Para alguns (homens), a prática de atos cruéis é a única forma de se
impor como homem.”
Alba Zaluar, antropóloga do Núcleo de Pesquisa das
Violências na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
“Chegam para a vítima e dizem para ela que é uma ação
penal condicionada à representação. Você acha que ela, depois de ter sido
violentada, tem condições de tomar uma decisão?”
Maria Amélia de Almeida Teles, da União de Mulheres de
São Paulo.
“É o descrédito em relação a uma solução possível.”
Maria das Graças Pereira de Mello, presidente da Comissão
da Mulher Advogada da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), sobre o fato de a
vítima desistir de denunciar seu agressor ao perceber a morosidade da Justiça
e da polícia.
“Precisamos erradicar todas as formas de violência contra
a mulher, que hoje ainda sofre com a violência silenciosa, praticada na esfera
doméstica.”
Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da OAB-SP.
“Além de aceitar como naturais algumas práticas de
violência sexual, a sociedade tem medo de envolvimento no crime e não sabe que
a denúncia pode ser anônima.”
Karina Figueiredo, vice-coordenadora do Cecria (Centro de
Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes).
“A mídia tem um papel fundamental para a sensibilização
da sociedade em relação a esse assunto (violência sexual contra crianças),
que sempre foi tabu. Os meios de comunicação podem mostrar como o problema se
apresenta e conscientizar sobre a responsabilização do agressor. A partir
daí, a sociedade passará a denunciar ainda mais e cobrar a apuração dos
casos.”
Carlos Basilia, coordenador de projetos do Instituto
Brasileiro de Inovações em Saúde Social (Ibiss), integrante da Secretaria
Executiva do Fórum Permanente de Enfrentamento da Violência Sexual Contra
Crianças e Adolescentes do Estado do Rio de Janeiro.